domingo, 17 de maio de 2020

Dicas de material didático de Filosofia

     Toda aula de Filosofia exige um certo dinamismo para os estudantes não cairem naquela sensação de tédio. Então, aproveito o espaço aqui do blog Filosofia em ação. Pensar bem para bem viver e compartilhar alguns recursos que ilustram ou introduzem os conteúdos em sala de aula, mas que podem ser também acessados em  casa.
    
     Alguns DVDs foram produzidos, mas pouco divulgados entre os professores de Filosofia. Depois do CD Room "Mundo de Sofia", na década de 1990, após a publicação do livro com o mesmo título, muitas novidades surgiram como forma de utilizar a tecnologia na educação. Um desses produtos foi a Coleção Filosofia SBJ Produções distribuído em cinco volumes, cada um apresentando as características de um dos períodos da Filosofia, desde os pré-socráticos até a contemporaneidade.



     Há também livros que têm uma linguagem não-filosófica, como narrativas, romances, para introduzir o estudante ao pensar, por exemplo:

Como ler um texto de filosofia, de Antônio J. Severino, Ed. Paulus
Dicionário básico de Filosofia, de H. Japiassú, da Jorge Zahar Editor.
Do lúdico ao crítico. Desafios, finalidades e métodos possíveis para o ensino de Filosofia. Marcus Alexandre M. de Andrade
Filosofia política para iniciantes, de Marcus Alexandre M. de Andrade.
Mundo de Sofia, de Gaader, traduzido pela Companhia das Letras
Uma janela para a filosofia, de M. Abdalla, publicado pela editora Paulus

     Atualmente, há muitos sites, lives sendo produzidos e fáceis de serem acessados pela internet, como minisséries Ser ou não-Ser, da filósofa Viviane Mosé, ou ainda, Poeira das Estrelas, do físico Marcelo Gleiser ou O valor do amanhã, Café Filosófico, Filosofia Pop, dentre outros programas.

     Aqui é só uma amostragem. Há muito a explorar. Então, que possamos ter aulas dinâmicas, significativas para estimular os estudantes a lerem e refletirem. Mas, uma coisa é essencial, pensar. Pensar sempre, pois isso é que nos garante a conhecer melhor o Ser Humano.






A importância do desenvolvimento do Pensar no Ensino Fundamental público no Brasil

     O fundamento de uma sociedade humana é a educação. Por meio dela é que se constrói o indivíduo ou o cidadão consciente de seus deveres. E para uma república democrática é necessário desenvolver não apenas, uma educação moral e cívica, mas também, uma educação crítica, em que a partir das virtudes desperta-se o comportamento ético e reflexivo para o exercício da cidadania. Contudo, quando começar o ensino do Pensar?

Alunos da EE Orestes Ferreira de Toledo durante palestra, 2012.

     Na Legislação da Educação Nacional Brasileira sob o número 9.394 de 20 de dezembro de 1996, Art. 32, incisos III e IV estabelece conteúdos que diz respeito "a atitudes e valores", bem como "o fortalecimento dos vínculos de família, dos laços de solidariedade humana e de respeito reciproco em que se assenta a vida social", o que reforça a presença da disciplina de Filosofia, não só tratada como tema transversal, mas, sim, como conteúdo específico trabalhado por profissionais da área. No entanto, na grade curricular escolar esses conteúdos só são apresentados para os jovens brasileiros, na maioria das escolas públicas do território nacional, na última etapa da Educação básica, ou seja, no Ensino Médio, que determina, conforme o Art. 35, inciso III "o aprimoramento do educando como pessoa humana, incluindo a formação ética e o desenvolvimento da autonomia intelectual e do pensamento crítico". Com a Lei Nº 11.684 de 02 de junho de 2008 e a Lei 13.415 de 2017, o ensino de Filosofia como disciplina na educação básica tornou-se obrigatória, mas ainda está ausente em várias escolas e, principalmente, do ensino fundamental.

     O desenvolvimento do Pensar exige tempo para filosofar, e consequentemente, esse tempo deve ser iniciado desde a infância, em que o ensino de Filosofia busca tratar do homem integral. Daí, a importância do desenvolvimento do Pensar, pelo menos no ciclo II ou séries finais do Ensino fundamental, porque enriquece o entendimento da linguagem formal, necessária para a produção textual, tanto em Filosofia quanto em outras disciplinas científicas, haja vista que, geralmente, as crianças e os adolescentes têm mais contato com os textos narrativos. Assim, o filosofar promove o autoconhecimento, debates sobre a realidade em que vivemos, a transmissão das ciências das prudência, do senso de justiça, do pudor, ou seja, a "virtude da civilidade" em idade escolar.

     O legado que recebemos da Grécia Clássica foi a democracia, em que o cidadão para participar da república era educado como homem virtuoso. Essa concepção foi defendida desde tempo de Sócrates, Platão e Aristóteles, pilares do Conhecimento Ocidental até os nossos dias. Montesquieu, Rousseau e outros filósofos modernos e contemporâneos concebiam a educação das virtudes como essencial para o desenvolvimento de uma sociedade justa, igualitária e democrática, embora tenham tido contextos específicos de época.

     Portanto, o desenvolvimento do Pensar na educação escolar brasileira deveria ter um tempo que integrasse melhor as várias formas de aprender a ser, a conhecer, a fazer e a conviver, como experiência da realidade em que se vive. A escola é um local que circula o conhecimento e deve incentivar as crianças e os jovens a superar o senso comum. Por isso, as aulas de Filosofia deveriam tornar-se "oficina de conceitos" como afirmam Deleuze e Guattari (1992), em que os estudantes ao investigar aprendem o ato de filosofar, de dialogar, de buscar o sentido da vida, do conhecimento, da felicidade.

     Para garantir uma educação do Pensar aos estudantes brasileiros, resta às autoridades competentes da área da Educação exercer uma política comprometida com uma sociedade emancipadora, implantando medidas mais sensatas nos currículos, onde a base comum deve partir do desenvolvimento do Pensar para, consequentemente, expandir as competências leitoras e escritoras, bem como suas habilidades necessária para a vida.

Referências:

BRASIL. Lei e Diretrizes de Base da Educação Nacional, Nº 9.394 de 20/12/96. Brasília: Senado, 1996.
BRASIL. Lei 11.684 de 02/06/08. Brasília: Senado, 2008.
BRASIL. Lei 13.415 de maio de 2017. Brasília: Senado, 2017.
BRASIL. Orientações curriculares para o ensino médio. Vol. 3. Brasília: MEC, Secretaria de Educação básica, 2006.
BRASIL. Parâmetros Curriculares Nacionais. Brasília: Ministério da Educação, 1997.
DELEUZE, G. e GUATTARI, F. O que é Filosofia? Rio de Janeiro: Editora 34, 1992.
DELORS, J. e EUFRAZIO, J. C. Educação: um tesouro a descobrir. São Paulo: Cortez, 1998.
PLATÃO. Protágoras. Disponível em http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&zco_obra=6705. Acesso em 19 jul 2013. Tradução Luiza Christov.

domingo, 12 de abril de 2020

O Poder a favor da vida

Muro escolar revestido com cores da bandeira brasileira
em Marinópolis-SP, 2014
      Em tempos de pandemia causado pelo Coronavírus - Covid 19 - refletimos sobre o Poder ao longo da História.
   A partir dos estudos feitos, ao longo de décadas, pelas Ciências Humanas, no período contemporâneo, percebe-se que os fenômenos sociais mais presentes na humanidade são o poder e a violência.
     Embora as Ciências Humanas têm, no seu início, corroborado em alguns momentos da História com a permanência da hegemonia de certos povos ou grupos da sociedade, justificando seu poder por vias racionais, as Ciências Sociais têm diagnosticado que a violência gerada é fruto das "legitimidades" outorgadas ou promulgadas por "Direitos" discutidos no âmbito político-econômico-geográfico, causando no social tensões nas nações por elas investigadas.
     O fenômeno "Poder", desde tempos remotos, esta enraizado no ser humano como algo intrínseco a sua natureza. Se de um lado, trouxe aparentemente benefícios para uns, no entanto, causou e tem causado sequelas desumanas para uma grande maioria dos homens ou sociedades.
     Nesse sentido, o filósofo italiano Giorgio Agamben em sua obra O Poder soberano e vida nua, desperta reflexões significativas. Trata da capacidade que o ser humano tem de usar a linguagem e com ela persuadir um grupo ou povo, demonstrando com isso que a materialidade do homem como tal está nessa habilidade imanente e, não apenas epistemológica, de criar conceitos direcionados a seus pares como acreditava Hegel. Influenciado por Aristóteles, Agamben dialoga também com Heidegger, Kant, Foucault, Nietzsche, Arend, Benjamin buscando compreender o "dispositivo" que ontologicamente está eclodindo no seio das culturas. A partir dos estudos feitos sobre o período moderno constata-se que os indivíduos controlados pelo Estado passam a serem vistos como meros objetos "mercadológicos", gerado por um "biopoder", ou seja, o econômico prevalece além do corpo social e cultural, sendo a violência a exploração como consequência.
    Com isso, podemos relacionar a análise feita por Alfredo Bosi, em Dialética da colonização, onde apresenta de modo peculiar as versões utilizadas pela linguagem com o outro.Os exemplos dos poemas de José de Anchieta faz-nos pensar como aquilo que, aparentemente seria uma forma de santidade, de purificação para uma civilização, demonstra uma forma de dominação da cultura europeia cristã a outra. Apesar de seu esforço em adaptar a realidade indígena às suas peças, por exemplo, percebe-se o quanto de ideologia, por meio da linguagem, violentou tantos povos causando o etnocentrismo, ou seja, violência nos costumes, até hoje, dizimados pelo mundo e em nossa sociedade que estabeleceu preconceito entre cultura erudita versus cultura popular. Isso relacionado aos estudos de Agamben faz-nos refletir num momento que tal "dispositivo" foi acionada na humanidade, visto que a Idade Média também foi palco de "legitimidades" privilegiadas para uns em detrimento de vários outros.
     Nessa "dialética da colonização", que nada mais é que estratégia do poder, Assaman também chama a atenção para o "silêncio coletivo" durante o período do holocausto e do nazismo, em sua obra Espaço de recordação. A autora discute que não há ausência de memória, pois ela acontece nos grupos sociais promovendo encontros, recordações. Mas, "a memória não se enquadra na História", porque como verificamos pela bibliografia citada, o poder registrado pela História tenta "apagar" a memória de grupos ou povos. No entanto, indivíduos ao se encontrarem formam grupos sociais em busca de sua identidade. Geralmente, a memória dos mortos passa a ser o ponto de partida para a identidade desse grupo. Como também foi citado na obra de Bosi quando analisou a violência que os portugueses faziam com os indígenas, tirando-os de suas terras.
     O antropólogo Appadurai, em O medo do pequeno número constata, também, a relação do poder causada pela modernidade, que do Ocidente foi para as civilizações milenares da Ásia. O fato da economia capitalista querer dominar o mercado externo faz os blocos econômicos disputarem e explorarem o trabalho humano causando mais violência nas várias dimensões, não só política mas social e cultural gerando um exército de mão de obra não qualificada na Ìndia e em outros países do Oriente sem terem direitos.
     Said critica o "Imperalismo do Ocidente" que tem causado desastres não só econômicos, mas também, culturais. As crenças, os costumes, as economias locais, próprias das famílias bem como a linguagem não foram respeitadas nas suas aldeias. No início, nem se quer levadas em conta concebendo o mundo como uma "aldeia global".
     O fato de o Ocidente ver o Oriente com outros olhos isso não lhe dá o direito de negar o modo de vida que têm. O Oriente tem muito a contribuir para com o Ocidente. Por isso, a busca de um diálogo sobre seus símbolos e significados, haja visto, pela História, que países como Inglaterra e outros povos europeus dominaram e causaram tantas vítimas humanas. Hoje o capitalismo imperalista passou a ser questionado pelas minorias. 
     O Iani perpassa pela globalização gerada pelo capitalismo, também verificando que o massacre cultural dos povos não é nem sempre pela violência física, mas ideológica que existe por traz da mídia. Esta, busca manter uma ideia dessa "aldeia global" por meio da tecnologia, agora informatizada. Em  O mal-estar na civilização, de Freud, já alerta para os problemas psicológicos que os indivíduos da modernidade iriam enfrentar devido ao poder, tanto político-econônico quanto religioso, seriam constatados.
     A violência às crenças dos indivíduos, à sexualidade controlada pelo modo de produção capitalista ou pela Igreja será o mal do período contemporâneo, desestruturando indivíduos e suas famílias que por causa da produção terão as energias (libidos) direcionadas a satisfação de uma determinada classe. Diante de todo poder estabelecido pela globalização, Boaventura de Souza, propõe em Reinventar a teoria crítica e recomeçar a emancipação social  abrangendo uma nova ética para a Sociologia ou Ciências Sociais, concebendo, assim, a "Sociologia da ausência" e a "Sociologia da emergência".
     Abordar a necessidade em "Sociologia da ausência" reverte os monopólios das monocultura do saber, da produtividade, da mercadoria, da economia, das diversidades e compreender a "Sociologia da emergência" em que a ecologia do saber, da  produtividade, das relações das diferentes, da desescala entre outros aprofundamentos sugere o entendimento, das diversas facetas das culturas humanas como uma forma de buscar um convívio social tolerante, fraterno em que de fato todos possam gozar dos direitos, sem violência em que o poder seja a favor da vida.
     
     

sábado, 4 de abril de 2020

Filosofando em tempos de Coronavírus

     Em tempos de crise, seja ela pessoal ou social, há a necessidade de parar e refletir sobre o caminho que se fez e qual o caminho que se quer fazer. 
     Toda pessoa tem etapa na vida e, para mim, não é diferente. Precisei parar para refletir e organizar a caminhada. Passaram dias, semanas, e quando vi, meses. O tempo do filosofar não é o mesmo do relógio.
     Com o novo caminho, retomo o blog em tempos de crise maior que o pessoal, agora é mundial.
     A reflexão ou o filosofar é, mais uma vez, necessário para podermos caminhar.
     Para sabermos qual o caminho seguir devemos nos perguntar: O que queremos? 

 
     O que somos? De onde viemos? Para onde vamos? Já foram perguntados há séculos. Temos algumas respostas... Mas, o que fizemos com as respostas que já foram respondidas? 
     O mundo está passando por momentos difíceis, mas para quem conhece a História da Humanidade lembra dos percalços trilhados pelos mais corajosos.
     Todos somos convidados a filosofar, parar para refletir, analisar o caminho percorrido e pesar os resultados. Relembrar dos ensinamentos, questões e resultados que deram certo para se voltar a felicidade, não hedonista, mas, sim, do bem comum.
     O tempo do filosofar pode ser chamado de "quarentena" neste momento em que cada um deve estar em sua casa. Casa essa que não deve ser só física, mas adentrar em sua "casa interior" e refletir.
     Que possamos juntos, diante do desafio de um novo vírus - Covid 19 - buscarmos nos comprometer com a vida não só material, mas também, transcendental, pois o Universo é um só. Somos todos conectados.
     É tempo de cuidarmos de nossa saúde física, mental, psíquica, espiritual; cuidarmos mais uns dos outros e, assim, vivermos numa sociedade justa e solidária.

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Ideologia e discurso não-ideológico

     Ultimamente, a palavra "ideologia" tem sido muito citada no meio político como uma espécie de chavão para rebater opiniões opostas. Mas, o que é ideologia?

     A palavra "ideologia" quer dizer "conjunto de ideias", formação de ideias, segundo os filósofos Japiassú e Marcondes significa "em sentido mais amplo, passou a significar um conjunto de ideias, princípios e valores que refletem uma determinada visão de mundo, orientando uma forma de ação, sobretudo uma prática política". Neste sentido, a ideologia aqui é no sentido amplo como se diz a "ideologia de uma religião", a "ideologia de um partido, seja de direita ou de esquerda", a "ideologia de uma teoria". Ao analisar, neste sentido, é querer entender quais as ideias nessa ou naquela religião, quais as ideias nesse ou naquele partido, quais as ideias nessa ou naquela teoria, no texto lido etc.

     No entanto, há o significado de ideologia no sentido pejorativo, que segundo alguns estudiosos, existe na "superestrutura" de um Estado, isto é, a classe dominante de uma população procura criar e  manter uma ideia (ou várias) entre o povo para que pensem, sintam e ajam do jeito que essa classe deseja, seja ela política ou religiosa. Segundo o filósofo Marx e Engels, algumas ideias restringem-se apenas ao plano de ideias, distanciando-se da realidade. Por isso, no sentido negativo, essa visão de ideologia tem como característica uma visão de ideias ocas, lacunar, invertida e sem fundamento, foge à realidade, embora seja passada como algo natural a todos da população de uma determinada cultura, como presenciamos nas propagandas comerciais, nas propagandas religiosas, nas propagandas partidárias e esportivas. Exemplos: Figuras míticas que trarão seu presente, o xampu que deixará seu cabelo sedoso, a liberdade ao comprar aquele carro, a alegria que determinada bebida irá proporcionar, aquele aparelho ou marca que lhe dará um status etc.

     No discurso não-ideológico não é possível haver "fantasias", ideias sem fundamentos, pois a análise exige rigor nos fatos, na pesquisa, na lógica. Há um rigor na reflexão. Tem por objetivo apresentar a verdade em relação a realidade, contrariando, assim, o "discurso ideológico" que busca apresentar ideias que enganam as classes dominadas. 

      A ideologia utiliza uma narrativa sofista, da classe que domina para convencer a classe dominada a seguir o que pensam, o que sentem, daí, a importância de dominarem os meios de comunicação de massa (TVs, jornais, programas de rádios, revistas, internet). No discurso não-ideológico é necessário a pesquisa, o estudo, o debate, o consenso para se chegar a uma argumentação concisa, coerente.
     
     Por isso, o cidadão esclarecido ao ouvir, ler ou falar procura discernir o que é discurso ideológico do discurso não-ideológico e tirar suas conclusões, concordando ou não com o que ouviu, leu ou foi falado. Infelizmente, ainda temos muitos cidadãos na população que se deixam enganar por não saber identificar tais discursos. Cabe a Filosofia apresentar os vários tipos de discursos e esclarecer o indivíduo sobre tais mecanismos utilizados na sociedade onde se vive.

     

   
   

De volta ao Filosofia em ação. Pensar bem para bem viver

         Axé! Karen! Olá! Desejo a todas e a todos e todes muita saúde.      Infelizmente, durante a pandemia muita/os companheira/os brasil...